segunda-feira, janeiro 09, 2012

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

A memória mais antiga que tenho de um merceeiro, é a do Sr. João, um comerciante simpático que tinha o seu negócio numa loja escura ao fundo da rua da minha infância. Desconheço-lhe o apelido e a biografia completa, mas fiquei com a ideia de que teria descido das Beiras ou do Minho, no princípio dos anos cinquenta, em demanda duma vida melhor. Era, portanto, um emigrante, aquilo que, nos tempos que correm, qualquer um de nós está habilitado a ser.
Ainda me recordo da sua loja, cuja peça mais extraordinária era a gaveta do dinheiro a que se acoplava um pequeno guizo. Ninguém, empregado ou familiar, podia abrir aquela gaveta sem que de tal se apercebesse o prudente comerciante.
O negócio do merceeiro corria, como se pode imaginar, sem grandes sobressaltos. O rendimento dos consumidores era parco, comprava-se uma quarta de feijão, meio litro de azeite, uma posta de bacalhau demolhado, lá de vez em quando um garrafão de vinho Sanguinhal ou Camillo Alves, mas tudo corria sem crédito da banca, não havia preocupações com o escudo, que era uma moeda forte, e o marçano-infantil-de-cesto-às-costas trabalhava pelo que comia mais uma nota de vinte escudos que mensalmente era enviada para os pais em Arcos de Valdevez .
O Sr. João tinha uma vida modesta e absolutamente normal. Não gozava férias, pagava as suas contribuições, fazia filhos à mulher, dava bodo aos pobres pelo Natal, votava como chefe de família para a Junta de Freguesia, e, julgo eu, nunca pensou expandir a actividade para além daquela viela e daquela loja escura onde ganhava o suficiente para si e para a sua prole.
Hoje, o negócio de mercearias transfigurou-se. Os merceeiros são gente fina, que dá entrevistas à televisão e tem artes de abalar qualquer governo democraticamente eleito. As lojas são amplas e bem iluminadas, expandem-se em rede por todo o país com agressivas campanhas de imagem e sensibilização dos consumidores. Recurso publicitário de efeitos garantidos é dizer-se que se aposta nos produtos nacionais, o-que é-nacional-é-bom, mesmo bom, mas dito a sério, não como na campanha daquele poeta-publicitário dos anos sessenta que quis convencer os consumidores de que “Bosch é brom”, felizmente que havia censura e não deixou passar o despautério.
Os merceeiros de hoje é vê-los de fatinho e gravata, engalanados como em dia de festa, criando esse-gê-pê-esses, trabalhando com o dinheiro dos bancos e dos fornecedores, abrindo lojas no leste da Europa, no Estreito de Magalhães ou no deserto da Namíbia, porque, conforme se diz, o capital merceeiro não tem fronteiras, conhece os corredores das bolsas, não há pê-esse-i-vinte que lhe resista.
Porém, nem tudo é fácil. Há as incertezas do euro, essa espécie de moeda que os governos insistem em dizer que é para continuar, mas de que os merceeiros desconfiam como Maomé desconfiava do toucinho e da entremeada. Há os impostos, coisas lixadas para qualquer merceeiro que se preze. Felizmente que o mundo é vasto e os caminhos fáceis de percorrer. Há paraísos que acolhem as drogas leves e despenalizam os capitais estrangeiros. Há ilhas caimão, aligátor, jacaré e gavial. Há montes de possibilidades para quem aposta na internacionalização.
Como nada percebo de economia e negócios, pouco mais sei dizer. Só sei que tenho saudades de mercearias como a do Sr. João, onde ninguém ia ao engano, onde todos sabíamos o que comprávamos: uma lata de sardinhas era uma lata de sardinhas, um chouriço era um chouriço, um quilo de batatas era um quilo de batatas. Hoje vamos a uma mercearia moderna e arriscamo-nos a comprar a queda do governo, a ruína da moeda única ou a derrapagem da nossa consolidação orçamental.
Por mim, estava-me marimbando para estes negócios de mercearias finas e deixava-os ir à vida na paz do Senhor. É certo que poderíamos perder alguns benefícios da internacionalização, como o salmão fumado da Noruega, as tâmaras não sei de onde ou os chocolates da Ferrero Rocher. Paciência. Continuaríamos bem servidos com a sardinha de Peniche, a broa de Avintes, o vinho tinto do Cartaxo e o porco preto alentejano.
Merceeiros há muitos, meu amigos, o que é preciso é conhecê-los, amá-los, e, depois… (aqui entraria uma palavra feia a que o escrevente não se atreve ). Houve um inglês que em tempos que já lá vão se pôs a discorrer sobre a riqueza das nações. Eu digo que a riqueza das nações, pelo menos a da nossa, não é nada disso. É, nesta situação de estarmos a ser lixados todos os dias, ainda sermos capazes de resistir pelo riso e por algo mais, como cruzar o braço com o punho, à Bordalo, para as caras gordas dos figurões. Ora tomem!

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