sexta-feira, abril 28, 2006

IDEIAS DE EUROPA



Na mitologia latina Europa é uma princesa de Sídon por quem se enamora Júpiter, o rei dos deuses. Para a seduzir, transformou-se o deus num alvo e manso touro, surpreendendo-a quando se divertia junto ao mar. Atraída pela beleza e pelo ar inofensivo do extraordinário animal, subiu Europa para o seu dorso, não esperando ele por outra coisa para partir à desfilada pelas águas do mar. Só parou em Creta, e aí se consumou a união entre o lascivo deus e a jovem princesa.

Europa princesa, rainha. Foi assim que a viu Sebastian Münster, geógrafo e cartógrafo alemão (1488-1552) ao publicar em Basileia a sua Cosmographia Universalis, apresentando, a par de vinte e seis mapas, a imagem alegórica da rainha Europa. E se um braço é a Itália, tendo na mão a Sicília, e o outro se projecta na direcção da Dinamarca e da Escandinávia, a cabeça é a Península Ibérica e os olhos são de Portugal.

Bem diz Camões no canto III de Os Lusíadas:

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.”

E Fernando Pessoa, na Mensagem, em admirável exercício de intertextualidade:

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.”

Ideias de Europa. Como em David Mourão-Ferreira, Retrato de rapariga:

“Muito hirta de pé no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada a palidez inquieta
de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó de arroz um pó de biblioteca

surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique em Paris em Liége em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua num bar num museu numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa”

D.E.

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